Para ler

Virgem - Poema de Luiza Romão

Virgem

este texto é um parto:

há (tem me soa melhor)

a dor do que parte,

do que fica, do que nasce

 

ser virgem

está muito além de um hímen

da palavra ser ou não ter hífen

é matéria prima

barro úmido

húmus:

human woman women

 

homem,

eu não nasci da sua costela.

vim ao mundo pelas mãos

de alguma obstetra

filha de mãe mulher donzela

não a bela-pequena-aurora-adormecida-sereia-de-chapéu-vermelho,

sou filha da outra:

a que tem suor, sangue e leite

a que labuta com dois filhos nas costas

e um no peito

 

tornar-se mulher

pela perfuração de um falo?

falácia

habito meu próprio corpo

que fala e convalesce

sob as súplicas

de outra prece:

não à nossa-senhora-mãe-gentil-virgem-imaculada,

mas à padroeira das putas

das histéricas

e tresloucadas

das mulheres-Medéia

e das Clitemnestras

das malditas

e revolucionárias

Rosas Marias Joana Zuzus Pagus Fridas

sofridas e incansáveis

 

meninas em gestação

de ser mulher

meninas que sangram

mês a mês

possibilidades de si

que abortam o que não teve lugar

o que não pode ser

meninas em gestação

mulheres em gesto

 

não colocarei o pau na mesa

se você vem com

“porra, porrada, caralho”

mostro meus peitos abertos

meus seios e anseios fartos

dessa gramática de barbárie

 

porque o ser mulher

está muito além de um artigo feminino

definido ou indefinido

muito além,

de um artigo feminino

em liquidação numa loja barata de cosméticos

de um artigo feminino

publicado na página 5 das novas, cláudias, caprichos, tititis

está além dos artigos

da lei Maria da Penha

[de qualquer lei de direitos humanos universais]

 

porque o ser mulher

está além do artigo.

está no sujeito:

que não se sujeita

que age, atua,

direto, intransitivo

está no sujeito,

independente

de gênero, número e grau

 

(Luiza Romão)

 

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